sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Janela da Frente - Amores de Verão - Maria Teresa Serrenho


Amores de Verão

Mais um Agosto chegou ao fim, mais um Verão de festas e euforias, praias e banhos. O país vive em Agosto uma espécie de doping que energiza o pessoal até ao próximo Verão. Os emigrantes vêm matar saudades das suas terras, das suas famílias, e como o tempo é escasso, passam vorazes pelas muitas festas, onde encontram amigos e conhecidos pelo menos uma vez por ano. Muitas vezes esta é a única relação que têm com o “seu” país. País que se preocupa em dar-lhes festa, mas que se esquece de lhes dar uma escola de qualidade para que os filhos mantenham uma ligação a Portugal, com proficiência na Língua Portuguesa e reconhecimento da sua História. Um país que tenha um Consulado, nos países onde residem, um Consulado que os acolha e resolva os problemas com eficiência e eficácia, onde sintam apoio e confiança, em vez de arrogância e sobranceria.
E os portugueses residentes? Em Agosto as crianças não têm actividades, por isso a centralização das férias é também uma necessidade.
Por tudo isto, as estradas, ruas, praias, festas e feiras, parecem encher exponencialmente até meados do mês e de repente tal como encheram, esvaziam e as terrinhas ficam mais tristes e silenciosas, os que ficaram limpam e arrumam os vestígios das festas, na esperança de que o ano passe depressa e que estejam todos vivos e de saúde para o próximo “querido mês de Agosto”.
Também a vida política e partidária vive a euforia de Verão. Nas autarquias aprimoram-se as organizações das festas de Verão, não perdendo de vista que no próximo ano estarão em pré-campanha eleitoral. Não há verba para arranjar esta ou aquela rua (só lá vivem meia dúzia de velhos que já nem votam), não se pode esbanjar dinheiro com mão de obra e meios ecológicos, para limpar balseiras e passeios, aplica-se glifosato, afinal sempre assim fizeram, mas há sempre verbas para contratar o “melhor” e mais caro artista que vem animar uma noite de Verão. As prioridades de escolha política e estratégica serão sempre as que mais se salientem plasmadas em cartazes e revistas municipais ou de freguesia.
Depois há as festas de Verão dos partidos, os festivais e os mercados temáticos, enfim uma roda viva de acontecimentos que “anestesiam” momentaneamente as gentes, pelo menos aquelas que podem ter alguns momentos diferentes das suas rotinas e problemas, porque há os outros, os outros que têm em cada dia os mesmos problemas, as mesmas carências e dificuldades, quer financeiras, quer de saúde. Mas é Verão e tudo parece menos negro e deprimente.
Amanhã começa Setembro, Portugal acorda de novo, as escolas vão recomeçar, com as mesmas lacunas, com o mesmo desinvestimento quer material, quer de formação e respeito pelos professores.
Amanhã começa Setembro, com os mesmos problemas de desinvestimento e fragilização do Serviço Nacional de Saúde que pareceram anestesiados durante o Verão (pelo menos nos meios mediáticos, mas não a quem os sentiu na pele).
No Verão há férias Judiciais, férias Parlamentares, mas terminadas as férias veremos mais eficácia da Justiça?  Acabará finalmente a impunidade? Serão castigados e expropriados os que roubaram o dinheiro que faz tanta falta à economia do país?
Não houve férias para os afectos, abracinhos e selfies do nosso Presidente, que tudo “resolve” com as câmaras de televisão atrás e muitos beijinhos e abraços. Até os estrangeiros querem uma selfie com o Presidente, qual estrela de televisão. Entretanto a corrupção continua, a cada passo aparece mais um caso, e como não há acção rápida da justiça, não há efectiva dissuasão de a praticar e o atoleiro vai-se alargando.
Os banhos nas águas geladas do interior não podem limpar as mãos de quem tem responsabilidades, os beijinhos e carinhos não resolvem problemas. Como diz a sábia voz do povo “amores de Verão ficam enterrados na areia”.


Maria Teresa Serrenho
31/08/2018
  


3 comentários:

  1. Teresa que belo texto ! tudo o que escreveu é o que eu tambem sinto , penso e argumento com as pessoas com quem lido , pena tenho de não ser capaz de exprimir duma maneira tão clara e incisiva como o faz . Continuo a ter esperança que aos poucos que as coisas se corrijam ...

    ResponderEliminar
  2. Não sou assim tão crítico em relação ao Presidente da República, mas no essencial estou de acordo consigo. E embora, com o passar dos anos, vá perdendo a esperança de que consigamos livrar-nos da corja de malfeitores que se apossou do país e que impede que este se desenvolva, ainda me resta alguma. Por isso, ler textos como este é um bálsamo para a minha alma.

    ResponderEliminar