domingo, 18 de junho de 2017

Janela da Frente - EUCALIPTOS, PETROLEO VERDE, OU CHAMAS DO INFERNO? - Maria Teresa Serrenho



 Eucaliptos, Petróleo Verde, ou Chamas do Inferno?

Sei que sou uma leiga no assunto. Afinal o que é que eu sei sobre florestas, eucaliptos e fogos?
Não sou engenheira florestal, não tenho formação em ordenamento do território, mas sei, que o que se tem feito ao nosso país é criminoso!
Na minha vida já passei por muitos Verões, por muitas secas e assisti, mais de perto ou mais de longe, a muitos incêndios.
O dia e a noite de ontem fizeram-me lembrar dias de Verão da minha meninice, lembro-me bem daquelas noites quentes, em que a vizinhança saía para a rua. O meu avô, sentava-se sempre numa cadeira virada ao contrário, colocando os braços nas costas da cadeira e ali passava o serão em amena cavaqueira. Muitas vezes viam-se no horizonte os relâmpagos de uma trovoada que ecoava ao longe. Nessas noites de Verão, acordávamos muitas vezes ao som da sirene dos bombeiros, a trovoada tinha deixado rasto…
Não obstante as alterações climatéricas actuais, toda a vida existiram trovoadas secas de Verão, que provocavam incêndios, só que as fontes de ignição e os materiais combustíveis eram outros.
Lembra-me de grandes incêndios de encostas de mato, que claro eram assustadores, como são todos os incêndios, mas que eram geralmente dominados geograficamente. O eucalipto tem uma combustão muito mais violenta e expansiva do fogo. Claro que a limpeza das matas e a criação de caminhos de protecção são fundamentais, mas, até é curioso ponderarmos sobre a questão dos matos, considerados sempre tão “culpados” na boca dos comentadores televisivos, que se arvoram especialistas de tudo e mais alguma coisa, mas que não sabem que nos eucaliptais, nem o mato cresce…
A diversidade da nossa agricultura foi substituída pela mono cultura do eucalipto. Vamos por esse Portugal fora e encontramos um verdadeiro mar verde, mas, verde de eucalipto. A agricultura familiar e de subsistência tem vindo a ser substituída pelo eucalipto, corta-se um pinhal, não se planta outro, coloca-se eucalipto, fala-se em reflorestação, mas continua a supremacia do eucalipto…
Em 2017 a área ocupada por floresta em Portugal Continental é 39,0%, sendo a sua maioria de eucaliptos… Em Janeiro deste ano o Governo através do senhor Primeiro Ministro, afirmou que ia disponibilizar mais de 18 milhões de euros para melhorar a produtividade na plantação de eucalipto.
“O grande desafio que temos pela frente é a melhoria da produtividade na plantação do eucalipto. A produtividade média que temos por hectare é baixíssima e temos condições de a melhorar significativamente”, afirmou António Costa, na Figueira da Foz, durante a sessão de assinatura de contratos de investimento de 125 milhões de euros com o grupo Altri." (in Observador 16-01-2017)
O eucalipto cresce rápido, as empresas de celulose compram a madeira aos produtores, sem qualquer compromisso, ou exigência de preservação ambiental. E, as nossas nascentes vão secando, os nossos charcos, o nosso paul colocam-se em risco, enquanto os nossos governantes se deixam manipular pelas empresas de celuloses, defendendo em última análise, o interesse dos do costume, relevando a sua vantagem para a economia (dos mesmos, claro…) e alegando que afinal o eucalipto é o nosso “petróleo verde”.
Todos os anos, na ”época” dos fogos se fala que tem que ser feito um plano estratégico, que tem que se mexer no ordenamento do território, mas no Inverno tudo se esquece, até que novo problema venha a surgir.
O ordenamento do território e da floresta tem sido anárquico, e as directivas para o controlo da plantação de eucalipto, continuam a defender apenas a aparente promessa de lucros rápidos, não tendo em conta os riscos ambientais, nem, em última análise a segurança das pessoas. Este não foi mais um grande incêndio, este tem sido um autentico pesadelo. A perda de tantas vidas tem que ser honrada, com verdadeiro empenho de quem nos governa, com a seriedade e o rigor nas efectivas medidas a serem implementadas.

2 comentários:

  1. O rei vai nu, mas quem está de costas não vê!... Enquanto o país for um feudo, em que o interesse privado se sobrepõe ao colectivo, tudo ficará como dantes, a culpa morrerá solteira e... coitado de quem morreu ou perdeu os seus entes queridos. Há muita "democracia" mas pouquíssimos valores e respeito, e homens com H grande.

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  2. Boa noite Teresa. As zonas mais atingidas nesta calamidade, creio eu estão a ser os pinheiros. Se as infraestrururas segirem modelos seguros,os locais sejam objeto de manutenção e as populações seguirem culturas de segurança por ação direta ou indiretamente, os fatores de risco decerto são acautelados. O Estado, talves, deva pensar como o povo chinês: Antes de mudar a cadeira questiona-se se a mudança é vantajosa para o "interesse público" ou não. Agora acabaram-se com muitas estruturas bem identificadas pelas populações e as criadas ainda não estão familiarizadas pelo meio, penso eu. Depois acredito que o fim dos Governadores Civis num país sem regionalização não foi muito acertivo.

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