quinta-feira, 9 de julho de 2026

Frente Cívica apresenta denúncia sobre pareceres de Paulo Pinto de Albuquerque


A Frente Cívica apresentou esta quinta-feira à Ordem dos Advogados e ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal uma exposição pedindo o apuramento das circunstâncias em que o advogado Paulo Pinto de Albuquerque preparou pareceres jurídicos para José Sócrates, na "Operação Marquês", e para o traficante de droga Rúben "Xuxas" Oliveira. Notícias saídas na imprensa em Junho indicavam que o professor de Direito e ex-juiz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos teria cobrado mais de 500 mil euros por um parecer e serviços jurídicos a Sócrates e outros arguidos da Operação Marquês, e cerca de 50 mil euros para um parecer para a defesa de Rúben Oliveira, já condenado em duas instâncias judiciais a vinte anos de prisão por tráfico de droga agravado, associação criminosa e branqueamento de capitais.

Na sua exposição, a Frente Cívica recorda que, "como advogado com inscrição activa, Paulo Pinto de Albuquerque está sujeito às obrigações de prevenção e combate ao branqueamento de capitais prescritas na Lei n.º 83/2017, de 18 de Agosto, nomeadamente quanto aos deveres de identificação e diligência, de abstenção e de recusa de operações que possam configurar mecanismos de branqueamento de capitais, ou movimentar valores que resultem de operações desta natureza.

"Os advogados, enquanto entidades obrigadas ao abrigo da lei de combate ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, têm o dever de conhecer os seus clientes e a origem dos seus meios de riqueza, bem como de garantir a proveniência lícita de quaisquer capitais recebidos ao abrigo de serviços prestados, pelo que se impõe apurar de que forma (se é que de alguma) o advogado Paulo Pinto de Albuquerque diligenciou para cumprir as suas obrigações deontológicas e legais nos dois processos citados".

A associação pede ao Departamento de Investigação e Acção Penal e à Ordem dos Advogados para, no plano criminal e deontológico, verificarem se o advogado cumpriu as suas responsabilidades de diligência devida antes de aceitar dinheiro com potencial proveniência ilícita. "É inquestionável que todos os arguidos têm o direito à sua defesa. Mas a este sagrado direito à defesa do arguido não corresponde o direito de um advogado vender pareceres de dezenas ou centenas de milhar de euros sem cuidar de garantir, com o rigor que a lei e a deontologia impõem, que não esteja, com os serviços que presta, a tornar-se beneficiário de dinheiro ilicitamente branqueado, produto de crimes graves, causadores de elevado dano social, como corrupção e tráfico de droga", apontou a Frente Cívica. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Conferência “Liberdade de Expressão em Portugal e na UE”



As queixas ou processos por difamação são hoje uma arma retaliatória usada contra jornalistas, ativistas ou cidadãos que exercem a sua liberdade de expressão para criticar os poderes. Portugal foi condenado mais de 30 vezes no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos por violar a liberdade de expressão dos cidadãos. Agora, anuncia-se nova legislação para travar o abuso dos tribunais como arma retaliatória. Que reformas são necessárias para proteger a liberdade de expressão?

É esta a pergunta de partida que a Conferência “Liberdade de Expressão em Portugal e na UE” pretende responder, juntando à mesa vários intervenientes, no dia 8 de abril, às 14h30, no Anfiteatro 7.21 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, num evento organizado pelo Departamento de Sociologia da UBI, através da sua docente Liliana Reis, em parceria com a Associação Frente Cívica e a EthosGov | Governance & Development.

A entrada é livre. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Candidatos Presidenciais dinamizam Dia Internacional Contra a Corrupção

Comemorações decorrem a 9 de Dezembro na Casa Branca de Gramido, Gondomar

Casa Branca de Gramido

O Papel do Presidente da República no Combate à Corrupção é o mote das Comemorações do Dia Internacional Contra a Corrupção, que este ano decorrem na Casa Branca de Gramido, junto ao Douro em Valbom, Gondomar. Dada a proximidade das eleições presidenciais, em Janeiro, a associação Frente Cívica desafiou os vários candidatos a juntarem-se ao evento, expondo a sua visão e compromissos para o combate à corrupção a partir da Presidência da República. 

Os candidatos presidenciais que aceitaram o desafio estarão presentes nas Comemorações do Dia Internacional Contra a Corrupção, com uma intervenção sobre o tema, seguida de debate com o público presente. A cerimónia contará também com a intervenção de dois ex-candidatos presidenciais, Henrique Neto e Paulo de Morais, para partilharem, com algum distanciamento, a sua experiência e visão sobre o mesmo tema. Luís Filipe Araújo, presidente da Câmara Municipal de Gondomar, entidade de acolhimento das Comemorações, abrirá os trabalhos. 

“A corrupção é hoje a principal ameaça, não só ao desenvolvimento económico e social do país, mas à própria estabilidade e continuidade da democracia. Sendo o Presidente da República o garante do regular funcionamento das instituições democráticas, é fundamental ouvirmos os candidatos presidenciais e debatermos com eles as suas prioridades e compromissos para assegurar um eficaz combate à corrupção”, explica o presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais.

O Dia Internacional Contra a Corrupção celebra a aprovação, em 2003, da Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. As comemorações portuguesas decorrem das 9h30 às 18h00 na Casa Branca de Gramido (programa em anexo). A entrada é livre.


Comemorações do Dia Internacional Contra a Corrupção

9 Dezembro 2025

 

Casa Branca de Gramido, Gondomar

Tv. Convenção de Gramido 41, 4420-416 Valbom, Gondomar

 

Programa

 

9h30: Abertura

Luís Filipe Araújo, Presidente da Câmara Municipal de Gondomar

João Paulo Batalha, Vice-presidente da Frente Cívica

 

10h00: António José Seguro

Candidato à Presidência da República

 

11h00: Henrique Neto

Ex-candidato à Presidência da República

 

12h00: Catarina Martins

Candidata à Presidência da República

 

13h00: Almoço livre

 

14h30: Paulo de Morais

Ex-candidato à Presidência da República e Presidente da Frente Cívica

 

15h30: Joana Amaral Dias

Candidata à Presidência da República

 

16h30: Jorge Pinto

Candidato à Presidência da República

 

17h30: Encerramento

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Mário Frota distinguido como comendador da Ordem do Mérito

 

O Prof. Mário Frota, membro fundador da Frente Cívica e seu primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral, foi esta segunda-feira agraciado pelo Presidente da República como comendador da Ordem do Mérito, pelo seu contributo para o desenvolvimento e defesa do Direito do Consumidor em Portugal. "Cabe-lhe a si, prezado professor e mestre, o mérito de ter lutado por essa causa", saudou o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa durante a cerimónia, no Palácio de Belém.

A Frente Cìvica dá os parabéns ao Prof. Mário Frota, nosso membro honorário, pela justa e merecida distinção.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Frente Cívica questiona impunidade de Ricardo Salgado

 


A Frente Cívica escreveu esta terça-feira ao presidente do Conselho Superior da Magistratura pedindo esclarecimentos públicos sobre o facto de Ricardo Salgado, condenado a seis anos e três meses de prisão efectiva no caso EDP, não ter ainda sido detido para iniciar o cumprimento da pena.

O ex-banqueiro foi condenado em 2024 por corrupção, no processo envolvendo Manuel Pinho, o ex-ministro da Economia do primeiro Governo de José Sócrates e ex-quadro do Banco Espírito Santo. Salgado recorreu da sentença para o Tribunal da Relação de Lisboa que, em Abril último, manteve integralmente a condenação decidida pela primeira instância.

«Seria de esperar que o condenado fosse preso, até porque há duas decisões de Tribunais no mesmo sentido (dupla conforme), não havendo por regra possibilidade de novo recurso. Apesar disto, até hoje, essa prisão não ocorreu e, assim, o banqueiro continua à solta, por razões que ninguém conhece», aponta a Frente Cívica. 

«Esta situação, que configura um aparente desprezo para com a Justiça, gera revolta e indignação generalizada na opinião pública, provocando justificado alarme social. Exige-se aos órgãos da Justiça uma explicação cabal e imediata sobre esta situação anómala», lê-se na carta, assinada pelo presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais e pelo vice-presidente João Paulo Batalha.

Anexa-se a carta, para conhecimento:


Exmo. Senhor Presidente
do Conselho Superior da Magistratura,

Juiz Conselheiro João Cura Mariano


 

Porto, 17 de Junho de 2025

Excelência,

É do conhecimento geral que o cidadão Ricardo Espírito Santo Silva Salgado, ex-banqueiro, foi condenado, em 2024, por corrupção activa e branqueamento, no processo publicamente conhecido como “caso EDP”. A sentença determinou a condenação a seis anos e três meses de prisão efectiva. A comunicação social divulgou profusamente esta informação, tendo mesmo inculcado na opinião pública a ideia (errónea, mas generalizada) de que Ricardo Salgado viria a ser detido em breve.

Na sequência desta condenação, Salgado recorreu da sentença do Tribunal de primeira instância para o Tribunal da Relação que decidiu, em Abril último, manter a condenação. Esta deliberação foi também ela amplamente noticiada, tendo então sido reforçada a convicção na opinião pública de que, finalmente, Ricardo Salgado iria cumprir pena de prisão. Seria de esperar que o condenado fosse preso, até porque há duas decisões de Tribunais no mesmo sentido (dupla conforme), não havendo por regra possibilidade de novo recurso. Apesar disto, até hoje, essa prisão não ocorreu e, assim, o banqueiro continua à solta, por razões que ninguém conhece.

Esta situação, que configura um aparente desprezo para com a Justiça, gera revolta e indignação generalizada na opinião pública, provocando justificado alarme social. Exige-se aos órgãos da Justiça uma explicação cabal e imediata sobre esta situação anómala. Pelo que, em representação da Associação FRENTE CÍVICA, vimos respeitosamente solicitar que o Conselho Superior da Magistratura, a que Vossa Excelência preside, proceda tão cedo quanto possível ao esclarecimento público que se impõe sobre esta matéria.

Com os nossos melhores cumprimentos,

 

  

Paulo de Morais, Presidente


 

João Paulo Batalha, Vice-Presidente

 


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Frente Cívica reclama indemnizações pelo apagão de 28 de Abril

 

A Frente Cívica escreveu esta quinta-feira ao primeiro-ministro, para pedir que o Governo cobre à REN uma indemnização pelos prejuízos causados pela interrupção do abastecimento de electricidade que ocorreu em Portugal a 28 de Abril passado. «A actividade económica parou, negócios perderam stocks de produtos perecíveis, os portugueses temeram pela sua segurança, e em pelo menos um caso, a falha de energia provocou ou contribuiu para a morte de uma pessoa», recorda a associação, na carta enviada.

Calculando o impacto do apagão na produção do país, com base no valor do PIB de 2024, a Frente Cívica aponta, em consonância com outras estimativas já publicadas, um prejuízo para Portugal da ordem dos 780,5 milhões de euros. «Em nosso entendimento, a entidade responsável por este e outros prejuízos é a REN – Redes Eléctricas Nacionais, uma vez que é a esta empresa que compete fazer a gestão global da rede eléctrica e garantir o fornecimento do serviço eléctrico em contínuo e em permanência. E, a este nível, na sua primeira e principal missão, a REN falhou em toda a linha, ou em toda a rede», lê-se na missiva.

«Dado que a REN fracassou na função que lhe foi atribuída pelo Estado e pelos portugueses, deve agora indemnizar-nos a todos enquanto cidadãos», apela a Frente Cívica. A associação exorta o Governo a cobrar à gestora da rede uma indemnização de 780,5 milhões de euros, «que permita ao Estado acudir aos prejuízos incorridos pelos agentes económicos afectados pelo apagão. Na eventualidade de não conseguir indemnizar, a REN poderá sempre entregar a concessão de volta ao Estado português, legítimo representante dos cidadãos ludibriados pela sua incúria», conclui a Frente Cívica. 

Anexa-se, para conhecimento, a carta enviada esta quinta-feira.

 

Exmo. Sr. Primeiro-Ministro,

Dr. Luís Montenegro

 

 

ASSUNTO: Falha de energia de 28 de Abril de 2025

DATA: 22 de Maio de 2025

 

 

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,

A falha de energia generalizada que se verificou em Portugal no último dia 28 de Abril teve um impacto na sociedade portuguesa de consequências cuja dimensão jamais conseguiremos determinar. Nos transtornos causados, na insegurança e alarme público que provocaram, foram devastadores os efeitos sentidos por cidadãos e empresas, a nível, social, económico, psicossocial e político. A actividade económica parou, negócios perderam stocks de produtos perecíveis, os portugueses temeram pela sua segurança, e em pelo menos um caso, a falha de energia provocou ou contribuiu para a morte de uma pessoa.

Alguns dos impactos e prejuízos do “apagão eléctrico” são intangíveis, nomeadamente na reputação do país como destino fiável e atractivo para o investimento estrangeiro. Mas o dano económico imediato é passível de uma estimativa. Um dia de trabalho destruído (sem contar outros prejuízos, como perdas de inventário, de maquinaria ou custos de oportunidade) é mensurável de forma simples e clara: considerando o valor de 284,9 milhares de milhões de euros do PIB português de 2024, que representa 780,5 milhões de euros em média diária, consideramos, salvo melhor opinião, ser este o valor do qual devem ser ressarcidos os portugueses.

Em nosso entendimento, a entidade responsável por este e outros prejuízos é a REN – Redes Eléctricas Nacionais, uma vez que é a esta empresa que compete fazer a gestão global da rede eléctrica e garantir o fornecimento do serviço eléctrico em contínuo e em permanência. E, a este nível, na sua primeira e principal missão, a REN falhou em toda a linha, ou em toda a rede. Cabe portanto ao concessionário assumir os prejuízos da falha de abastecimento eléctrico, que deve ser pago no montante acima apurado a título de indemnização ao concedente, o Estado português.

Dado que a REN fracassou na função que lhe foi atribuída pelo Estado e pelos portugueses, deve agora indemnizar-nos a todos enquanto cidadãos. Por esta razão, exortamos o Estado português, através do seu Governo, a cobrar à REN uma indemnização de 780,5 milhões de euros, que permita ao Estado acudir aos prejuízos incorridos pelos agentes económicos afectados pelo apagão. Na eventualidade de não conseguir indemnizar, a REN poderá sempre entregar a concessão de volta ao Estado português, legítimo representante dos cidadãos ludibriados pela sua incúria.

 

Com os melhores cumprimentos,

Pela Frente Cívica,

 

Uma imagem com cabide, inseto

Descrição gerada automaticamente 

 

 Paulo de Morais, Presidente

 

 

 

João Paulo Batalha, Vice-Presidente

 




quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Frente Cívica pede a primeiro-ministro que revogue lei dos solos

 


Frente Cívica pede a primeiro-ministro que revogue lei dos solos

Lei está “directamente associada a suspeitas de aproveitamento pessoal”

 

A Frente Cívica escreveu esta quarta-feira ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, apelando à revogação do Decreto-Lei que alterou o Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, a chamada Lei dos Solos. Na sequência da demissão do secretário de Estado do Ordenamento do Território, a associação nota que esta lei e as políticas em que Hernâni Dias se envolveu «estão manchadas pela mesma suspeição que tornou a sua continuidade no Governo impossível». «Este diploma, além do potencial de corrupção que comporta, está agora directamente associado a suspeitas concretas de aproveitamento pessoal de um dos seus principais autores, já visado noutras investigações judiciais, o ex-Secretário de Estado Hernâni Dias”, nota a Frente Cívica.

Além disso, a associação critica a entrada em vigor do Decreto-Lei, numa altura em que foi já iniciada a sua revisão, apontando a incerteza jurídica que este processo provoca. «Isto coloca o Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial numa “terra de ninguém”, em que começa a produzir efeitos num contexto em que já se anuncia a sua revisão e a reversão de algumas das suas normas. O potencial para a confusão jurídica, a litigância e a invocação de “direitos adquiridos” em negócios urbanísticos – através de diferendos que se poderão arrastar por anos ou décadas – é praticamente inesgotável», alerta a associação.

A Frente Cívica reitera que o novo regime comporta enormes riscos de corrupção e desencadeará «uma autêntica corrida a terrenos rústicos pelos promotores imobiliários próximos do poder autárquico, com enormes impactos inflacionários e ambientais. Os “patos-bravos” do imobiliário conseguirão comprar solos rústicos a preço de saldo, transformá-los em terreno urbano e, com essa mera operação administrativa, embolsar mais-valias milionárias, de 600% ou mais. Margens desta dimensão só se obtêm no grande tráfico de droga e, agora, no urbanismo».

Junta-se, para conhecimento, a carta enviada ao primeiro-ministro.



Exmo. Senhor Primeiro-Ministro

Doutor Luís Montenegro

 

 

Data: 29 de Janeiro de 2025

ASSUNTO: Revogação do Decreto-Lei n.º 117/2024, de 30 de Dezembro, que altera o Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial

 

Excelência,

O Decreto-Lei n.º 117/2024, que hoje entrou em vigor, vem facilitar a reclassificação de solo rústico para solo urbano, mediante um novo mecanismo de alteração simplificada dos Planos Directores Municipais.

Esta legislação incentiva alterações abruptas e casuísticas aos Planos Directores Municipais, a pedido dos proprietários e em negociação directa com os municípios, gerando amplas oportunidades para conluios corruptivos que destroem a coerência, previsibilidade e segurança jurídica do ordenamento territorial. Este dano é amplificado pela circunstância – inusitada e cremos que inédita – de o Governo ter anunciado a revisão do Decreto-Lei ainda antes de o mesmo entrar em vigor! Isto coloca o Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial numa “terra de ninguém”, em que começa a produzir efeitos num contexto em que já se anuncia a sua revisão e a reversão de algumas das suas normas. O potencial para a confusão jurídica, a litigância e a invocação de “direitos adquiridos” em negócios urbanísticos – através de diferendos que se poderão arrastar por anos ou décadas – é praticamente inesgotável.

Sejam quais forem as alterações que se venham a consagrar, o cerne do Decreto-Lei manter-se-á. A transformação expedita, a pedido, de solo rural em urbano irá gerar uma autêntica corrida a terrenos rústicos pelos promotores imobiliários próximos do poder autárquico, com enormes impactos inflacionários e ambientais. Os “patos-bravos” do imobiliário conseguirão comprar solos rústicos a preço de saldo, transformá-los em terreno urbano e, com essa mera operação administrativa, embolsar mais-valias milionárias, de 600% ou mais. Margens desta dimensão só se obtêm no grande tráfico de droga e, agora, no urbanismo.

O novo regime terá como primeiro efeito a subida vertiginosa do preço dos terrenos, encarecendo a habitação que neles se vier a construir. E terá como segundo efeito a corrupção, frequentemente associada ao financiamento político e de campanhas eleitorais. Isto, num país em que, segundo os dados da Direcção-Geral do Território, mais de 50% do solo já hoje classificado como urbano está desaproveitado, incluindo nas áreas de maior pressão, como a Área Metropolitana de Lisboa – o que deita por terra a tese de que a crise de habitação se deve à falta de terrenos urbanos. Por tudo isto, o Decreto-Lei 117/2024 é, em nosso entender, uma ignóbil trafulhice.

Acresce que, soubemo-lo agora, esta legislação foi concebida no seio do Ministério da Coesão Territorial, com a forte participação do ex-Secretário de Estado Hernâni Dias, agora afastado do Governo pela revelação de um evidente conflito de interesses associado a inegáveis riscos de corrupção.

Neste contexto, e em nosso entender, todas as políticas públicas que tiveram a participação deste governante estão manchadas pela mesma suspeição que tornou a sua continuidade no Governo impossível. Devem por isso ser alvo de um forte crivo de revisão. Em particular, o Decreto-Lei 117/2024 deve ser revogado. Este diploma, além do potencial de corrupção que comporta, está agora directamente associado a suspeitas concretas de aproveitamento pessoal de um dos seus principais autores, já visado noutras investigações judiciais, o ex-Secretário de Estado Hernâni Dias.

Excelência,

No seu discurso de tomada de posse como Primeiro-Ministro de Portugal, há menos de um ano, assumiu o compromisso: «Promoveremos uma governação séria, transparente e que combate a corrupção, com instituições credíveis e uma sociedade civil forte, tolerante e solidária». Esse compromisso, acompanhado do anúncio do combate à corrupção como prioridade política, tem agora o seu teste decisivo.

Assim, para segurança jurídica dos instrumentos de planeamento, para garantia e confiança dos cidadãos e até para salvaguarada da credibilidade do Governo, entendemos que só a revogação do Decreto-Lei 117/2024 reporá a legalidade democrática e a credibilidade do seu Executivo.

Assim, vimos pedir-lhe, Senhor Primeiro-Ministro, revogue esta ignóbil trafulhice.

Somos, com os nossos cumprimentos

Pela Frente Cívica,

 

Paulo de Morais, Presidente

 

 

João Paulo Batalha, Vice-Presidente